quinta-feira, 8 de março de 2012

A imprensa de Alagoas: sem terra. Outubro, 2011.





O JORNAL. Reforma Agrária. Comité de Mediação de Conflitos avalia ações. O JORNAL. Maceió, 01 out. 2011, p. 3.

O Comité de Mediação de Conflitos Agrários do Estado de Alagoas, cujo presidente é o secreário-chefe do Gabinete Civil, Álvaro Machado, reuniu-se ontem para discutir a tramitação de processos de reintegração de posse no Palácio Floriano Peixoto com a presença de representantes da Secretaria de Estado da Articulação Social, da superintendente do Incra, Lenilda Luna, da Defensoria Pública, da Polícia Militar, do Juiz da Vara Agrária, Airton Tenório e dos movimentos sociais (MSTe CPT).

Uma grande notícia compartilhada durante o encontro foi a bem sucedida reunião entre o governador do Estado Teotônio Vilela Filho (PSDB), com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, e a superintendene do Incra, Lenilda Lima, realizada na última quinta-feira, em Brasília. Durante a reunião, Vilela expôs, a situação da reforma agrária em Alagoas e cobrou mais agilidade na resolução dos pontos de conflito tanto pelo Ministério como pelo Incra.

"Esta reunião prova que a criação do Comitê [...] foi uma acertada decisão do governador do Estado. O Comitê é um espaço legítimo para a discussão e a busca de soluções para a reforma agrária em Alagoas", firma Álvaro Machado, secretário-chefe do Gabinete Civil.

Já para a superintendente do Incra, Lenilda Lima, o encontro em Brasília foi histórico. "A reunião entre o MDA, o Incra e o governador do Estado foi histórica. Um momento em que todos os pontos importantes para a solução dos conflitos agrários em Alagoas foram expostos e as devidas soluções pensadas e cobradas", disse.


REORDENAMENTO – A reunião também serviu para avaliar o Seminário sobre Reordenamento Fundiário, ocorrido no dia 13 de setembro, e realizado pelo Comitêde Mediação de Conflitos com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o tema através do debate e do intercâmbio de experiências.

O Comitê de Mediação de Conflitos Agrários do Estado de Alagoas foi criado no dia 4 de abril dc 2011, e tem por objetivo dialogar com os movimentos sociais para viabilizar e agilizar questões relacionadas ao Campo. As reuniões acontecem mensalmente.


ROSA, Láyra Santa. Distrito Industrial está abandonado. O terreno está tomado pela mata, lixo e por barracos de trabalhadores rurais da Liga dos Camponeses Pobres. O JORNAL, 04 out. 2011, p. 9.



Marechal Deodoro - O juiz mandou, a polícia cumpriu e о des­pejo aconteceu. Dona Maria chorou: "Só tenho Deus роr mim e a coragem para trabalhar na roça. Mas depois de tudo plantado, vieram tirar a terra da gente, vieram tirar a gente da terra". Ma­ria Verônica do Nascimento está entre as cerca de cem famílias de trabalhadores sem-terra que encararam a Polícia Militar (PM), ontem pela manhã, na Fazenda Santa Amélia, em Marechal Deodoro.

O choro dela não foi nem notado pelos 60 homens da 5ª Companhia Independente da PM, que mantinham a formação de combate, próximo aos barracos de taipa e de lona. Eles tinham de cumprir a determinação do juiz da 29ª Vara Cível, Ayrton de Lu­na Tenório, para reintegração de posse da área ocupada há quatro meses, próximo a margem da rodovia AL-215. Se houvesse resistência, a ordem seria imposta a força.

O Batalhão de Operações Especiais (Воре) e outras unidades da PM estavam de sobreaviso pa­ra reforçar a operação de despe­jo. Para evitar о pior, os negociadores do Centro de Gerenciamento de Crises entraram em ação. "Não dá para a gente tirar tudo daqui em um dia só", gritava um dos líderes do acampamento, que não quis revelar о nome. "Nós viemos aqui no dia 15 de setembro, era para vocês terem saído no dia 26, então já se passaram 25 dias, não e um dia só", rebatia о major PM Alessandro Paranhos.

Os sem-terra ligados a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) esperavam pelos coordenadores da entidade para negociar e dar entrevistas, mas curiosamente ninguém da LCP se fez presente para ajudá-los. O clima ficou tenso com a chegada da imprensa. No começo, um dos agricultores tentou impor a ordem de que era proibido fazer fotografias e que ninguém deveria dar entre­vistas.

Os repórteres fotográficos Pablo de Luca e Marcelo Albuquer­que começaram a registrar as imagens da negociação com a PM e foram intimidados por este mesmo líder, que não queria revelar о próprio nome, nem о de ninguém do acampamento. Mas, aos poucos, outros sem-ter­ra deixaram claro a equipe da Gazeta que queriam dar entrevis­tas, sendo identificados e fotografados.

Entre eles, a agricultora Cícera Paula dos Santos explica que о problema dessa terra está em uma negociação muito mal-explicada envolvendo a prefeitura do município. De posse da escritura da área de 68 hectares, os sem-terra afirmam que о antigo proprietário, Francisco Carlos da Rocha Melo, vendeu a terra para a Prefeitura de Marechal Deodoro por R$ 50 mil, no ano 2000.

"Tem alguma coisa errada, isso aqui era mato que não tinha dono, depois que a gente fez a bondade nas terras, plantou milho, mandioca, feijão, abobora e tudo mais, vem о antigo dono que vendeu a prefeitura dizer que não recebeu о dinheiro. Você acredita nisso?", pergunta Cícera, que acampa com cinco filhos e seis netos, na espera de melhorаr о sustento da família com a colheita da roca.

No debate com os PMs, os sem-terra deixaram claro que não abririam mão da roca plantada, segundo eles, cerca de dez hectares. "Ou pagam indenização ou deixam a roca com a gen­te", disse logo a agricultora Ma­ria Elizabete da Silva. "Não adianta alguém querer destruir a nossa plantação, se chegar algum trator aqui a gente queima", ameaçou о homem, que não queria se identificar e nem permitir о trabalho de reportagem.




Terra teria sido vendida a município

Sem ter nada para esconder nem medo de se identificar, о artesão e agricultor Cícero Aristides dos Santos mostra os calos das mãos e diz о que pensa, sem rodeios. "Essa ter­ra aqui foi vendida para a prefeitura e agora о antigo dono quer dar о golpe do baú para arrendar à Usina Sumauma. Estava tudo improdutivo", afirma Aristides, enquanto já retirava as telhas de um barraco, para evitar que о ma­terial fosse destruído com о despejo.

As negociações avançaram e os sem-terra decidiram levar os barracos que estavam mais longe da pista para a faixa de domínio, que fica numa distância de vinte metros do centro da rodovia AL-215. Dessa forma, a ordem de reintegração de posse estaria cumprida, sem mais mazelas. Quanto à roca, não seria papel da polícia destruí-la. A missão era apenas retirar as famílias da área em questão. A faixa de domínio não pertence a fazenda, é área do Estado.

Segundo о major Paranhos, os trabalhadores rurais mostraram a escritura informando sobre о pagamento de RS 50 mil de indenização pela prefeitura, mas este documento não estaria registrado em cartório. Como о antigo proprietário alega que não te­ria recebido о pagamento, entrou com a ação para reaver a área e ganhou a causa na Vara Agrária.

A Liga dos Camponeses pode recorrer dessa decisão de primeira instancia.


Após ação, sem-terra se mudaram para faixa de domínio




SOUZA, Natália. AO AR LIVRE. Feira leva consumidores à praça. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 20 out. 2011, p. 16.

Teve início ontem, na antiga Praça da Faculdade, em Ma­ceió, a 15a edição da Feira Camponesa, tradicionalmen­te realizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). A fei­ra, que fica montada até sá­bado (22), conta com mais de 100 barracas de produtos eco-agronômicos e com programação cultural.

Assentados e acampados de municípios de Água Bran­ca, Major Izidoro, Olho d'Água das Flores, Murici, Maragogi, Branquinha, entre outros, estão espalhados nas barraquinhas erguidas com lona e madeira, onde expõem mais de 100 variedades de frutas, verduras, sementes, especi­arias e produtos manufaturados como cocada, tapioca e beiju.

A freguesa Nilma Ferreira aprovou a feira. "Estou gos­tando, está melhor que a ou­tra, mais organizado e limpo, inclusive", comentou Nilma, que comprou laranja, limão e inhame.

Vantagem para o consumi­dor, retorno para os comer­ciantes. Assentada de Maragogi, Maria Eunice montou uma barraca de bananas, ca­na, água de coco e outras fru­tas. "A feira é a felicidade da gente. Ajuda a complementar a renda", afirmou.

"Plantar, Colher e Repar­tir". Reforçando o tema da Feira Camponesa a agrôno­ma e coordenadora da equipe técnica da CPT, Heloísa Ama­ral afirmou que são muitos os atrativos. "As pessoas têm a oportunidade de negociar as compras diretamente com o produtor, sem o intermé­dio do atravessador, e além da qualidade do produto, que não possui agrotóxicos, o cus­to é bem em conta", disse.

Ontem a exibição do docu­mentário O veneno está na me­sa e a edição do Papel no Varal abriram a programação cul­tural, que ainda contará com forró pé-de-serra e o tradici­onal bingo do carneiro, que acomece hoje.

Frutas, verduras, entre outros produtos podem ser adquiridos a preços em conta


CARVALHO, Severino. ASSENTAMENTOS. Incra anuncia retomada de obras. SUPERINTENDENTE DE ÓRGÃO DIZ QUE REGIÃO EM MARAGOGI TERÁ PRIORIDADE EM 2012. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 20 out. 2011, p. 16.

Maragogi - A superintendente regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Lenilda Lima, anunciou que os 21 assentamentos insta­lados em Maragogi terão prio­ridade no orçamento do órgão federal para o próximo ano. As ações serão focadas, sobretudo, nas obras de infraestrutura pa­ra garantir o escoamento da produção agrícola e o acesso das co­munidades às políticas públicas, principalmente de saúde e edu­cação. Foi a segunda vez que a su­perintendente esteve em Mara­gogi desde que assumiu o órgão federal em junho.

"Nós temos de ter um olhar di­ferenciado para essa região que forma um grande complexo da reforma agrária no Estado", des­tacou Lenilda, em reunião com representantes dos assentamen­tos do Incra instalados em Mara­gogi. A última vez que as estra­das vicinais receberam obras e melhoramentos por parte do In­cra foi em 2005. No inverno deste ano, diversos núcleos rurais da reforma agrária ficaram ilhados por causa das chuvas que deixaram as estradas intransitáveis.

O encontro entre a superin­tendente do Incra e os presiden­tes de assentamentos aconteceu na tarde da última terça-feira no auditório do 6° Batalhão de Po­licia Militar, em Maragogi, e foi pleiteado pelas associações ru­rais e movimentos sociais. O che­fe do setor de Infraestrutura do Incra, Marcos Bezerra, recordou que o orçamento deste ano foi apertado, cerca de RS 3,5 mi­lhões, e que por isso o Incra con­templou apenas as cidades de Matriz do Camaragibe, São Luís do Quitunde e Jacuípe, atingidas pelas chuvas de inverno.

De acordo com ele, obras inici­adas em 2010 e que foram parali­sadas serão retomadas e concluídas ainda esta ano, a exemplo do abastecimento de água e refor­ma de casas. "Tivemos uma dificuldadezinha com relação ao pa­gamento das empresas e elas es­tão recomeçando para que pos­sam finalizar obras em Buenos Aires, Javari, Samba, Mangebura, Itabaiana e Espírito Santo que são assentamentos contem­plados com obras de abastecimento de água”.

Lenilda Lima se reuniu com representantes de assentamentos que cobraram ações do Incra


Para evitar о pior, os negociadores do Centro de Gerenciamento de Crises entraram em ação


O Distrito Industrial da cidade de Messias está abandonado. Há quatro anos, a área que fica localizada às margens BR-104 era a garantia de desenvolvimento do município e o sonho do emprego fixo para a população. O tempo passou e os 14 hectares de terra estão tomados pelo lixo, mato alto e por barracos de integrantes da Liga dos Camponeses Pobres, que sem ter onde morar, espera conseguir a casa própria.
A área não lembra de longe um pólo industrial. Não existem placas ou sinalizações que apontem o projeto. No local deveria existir uma fábrica de pre-moldados, uma distribuidora de papel, uma avícola, além de uma distribuidora de combustivel, que já tinham demonstrado interesse em construir suas sedes na região. Sem o avanço das negociações com a prefeitura da cidade, algumas empresas ainda se arriscaram e resolveram murar os terrenos, porém o projeto não passou disso.

Sem a instalação das fábricas e empresas, os integrantes da Liga dos Camponeses Pobres resolveram ocupar a área. "Somos cem famílias, que não temos casa e nos sentimos no direito de ocupar essa área. Estávamos vivendo sem nenhuma estrutura e como esses terrenos foram abandonados, resolvemos trazer nossas famílias e vir morar aqui", contou Renato da Silva, uma das lideranças do acampamento. "Há alguns anos diziam que iam ser construidas fábricas nessa área, mas o tempo fui passando e nada foi feito. Para gente é bom que continue assim, pois queremos nossas casas" disse um integrante do movimento.

Ele contou ainda que está entrando na justiça para pedir a desapropriação do terreno, para que seja loteado e entregue as familias. "Se eles não querem construir nada aqui, a gente quer. É a nossa esperança de ter uma casa. Somos sem teto e lutamos há muitos anos por esse espaço", afirmou.

A reportagem de O JORNAL tentou entrar em contato com a prefeita Vânia Brandão, mas ela não estava na prefeitura da cidade. Quem explicou a situação do distrito industrial foi o chefe de gabinete, Ismar Vieira De acordo com ele, as instalações das fábricas não foram adiante, devido ao impasse que ocorre com a duplicação da BR-104, que deve cortar exatamente o terreno onde seria instalado o distrito.

"A Prefeitura de Messias está na justiça para tentar rever o projeto da duplicação da rodovia. Pelo que sabemos, a obra deve desapropriar uma parte do distrito industrial e dessa forma acaba atrapalhando o protcto inicial “, falou Ismar Vieira. "Temos todo interesse que esse distrito industrial seja instalado, mas por causa desse impasse não é vantagem para as empresas. Há quatro anos estamos nessa espera, tentando resolver essa situação".

O chefe de gabinete disse ainda, que com essa demora na implantação do distrito industrial várias empresas já desistiram de se instalar em Messias. "Tínhamos várias propostas que representavam mais empregos e mais impostos para a cidade, mas com essa pendência, muitas já desistiram Tinha uma distribuidora de papel que já foi para Marechal Deodoro, o restante está tudo parado", colocou. "Em relação ao pessoal que invadiu o terreno, eles estão justamente onde irá passar a rodovia. Sabemos que eles estão naquela área provisoriamente, então não termos problema. O que esperamos é que o projeto de duplicação mude e não nos afete ainda mais".


FATOS E NOTÍCIAS. FOICE & ENXADA. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 11 out. 2011, p 13

O MST em Alagoas esta em pé de guerra com о promotor de Atalaia, Sóstenes de Araújo Gaia. Segundo as lideranças do movimento, numa audiência, ele teria dito que, dos sem-terra "parte toda a bandidagem do município". Será?!


TRIBUNA INDEPENDENTE. ATALAIA. MST repudia declaração de promotor Sóstenes de Araújo. Tribuna Independente. Maceió, 11 out. 2011, p. 4.


A direção estadual do Movimento dos Sem Terra (MST), por meio de sua assessoria de imprensa, emitiu uma nota de repúdio em contraponto à declaração do promotor de Justiça, Sóstenes de Araújo Gaia, atual responsável pela Comarca de Atalaia.

O promotor, em audiência pública promovida na Câmara Municipal de Atalaia, atribuiu aos membros do MST os índices de criminalidade no município: "o problema dos sem-terra, que é de onde parte toda bandidagem do município". Sobre o acontecimento, o movimento enviou uma nota onde externa sua posição contra as declarações do promotor. "Sentimos na carne as questões da violência em nossa sociedade. A violência social e a violência do Estado quando não garante direitos constitucionais aos cidadãos. E temos feito nossa parte para minimizar estas violências. Imaginem o que seria dos milhares de trabalhadores que foram descartados das
terras das Usinas Brasileira e Ouncurí em Atalaia após falência, e com a apropriação indevida daquela terras por fazendeiros e autoridades; se não tivessem encontrado no MST a possibilidade de ter terra, trabalho e moradia digna", diz a nota.

Em outro trecho, o movimento reafirma e garante continuar com a luta: "O MST em Atalaia é alvo de inúmeras tentativas de barrar a luta pela terra, prova disto é o histórico de violência contra a luta e os trabalhadores, tendo três mortes só neste município, através de consórcios de fazendeiros e grileiros de terra com a conivência de autoridades (Chico do Sindicato, José Elenilson e Jaelson Melquía, todos assassinados, impunes até hoje). Buscando criminalizar o Movimento e construir uma imagem negativa".


GONÇALVES, Maurício. REVOLTA. Famílias são retiradas de área rural. CLIMA DE TENSÃO MARCOU A REINTEGRAÇÃO DE POSSE DA FAZENDA SANTA AMÉLIA E PM ESTEVE A POSTOS PARA CONTER OCUPANTES. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 12 out. 2011, p. 13.

Trabalhadores que ocupavam о terreno há quatro meses choraram о despejo e tentaram salvar о que puderam dos barracos

A imprensa de Alagoas: preconceito. Outubro, 2011.



AMARAL, Flávia. Menina deixou escola após ‘pressão’. Diretora da Theonilo Gama admite que não havia controle sobre tratamento que a aluna recebia por ter cabelo crespo. Tribuna Independente. Maceió, 16 out. 2011, p. 13.

Basta visitar uma escola para que numa conversa rápida com alunos fique evidente a importância de a temática do racismo ser encarada como prioridade e entrar na pauta de discussão de gestores da Educação.

A sala do oitavo ano da Escola Theonilo Gama, no Jacintinho, não difere das demais, como afirmou Valéria Silva, que acompanhou o drama de uma colega negra e de cabelo crespo, que deixou a escola. "O cabelo dela é bem ruim, por isso ela sempre tem que ouvir o pessoal chamar de Foguinho. Todos da sala mexem com ela e ela já chegou a chorar muitas vezes", lamentou a estudante.

Fomos até a escola para conversarmos com a vítima, mas era tarde. Segundo a diretora Gilvanete Matias da Silva, a jovem saiu do colégio por não suportar a pressão dos colegas pelo fato de ela ter o cabelo crespo. "Ela vinha à direção, a gente conversava com os colegas, mas depois acontecia de novo. Ela chegou até a colocar um aplique no cabelo, mas em vào", contou.

O drama foi acompanhado por diversos alunos. João Cavalcante, 13, lembra o quanto era difícil para a estudante se manter em sala de aula. "Vi várias vezes a bichinha chorar. Ela brigava às vezes e ia na diretoria, mas paravam de mexer com ela naquele dia. Depois voltava tudo de novo".


Desconhecimento

A Lei do Racismo nas escolas ainda é ilustre desconhecida de boa parte dos estudantes de escolas públicas ou particulares. Mas quando colocados em contato com a essência da lei, a matéria divide opiniões. Em uma conversa com quatro estudantes negros, permearam visões bem diferenciadas, mas entre elas um consenso: o racismo precisa ser combatido.

Para Luigi Nelson de Oliveira, 15, uma disciplina não resolveria um problema tão sério. "Somos todos iguais e não deveria ter matéria pra gente saber disso e respeitar o outro. Se não acontece isso hoje, não vai ser uma matéria que vai mudar", analisou. Aílton José, também com 15 anos, é mais otimista. "Resolve, sim, estudar, estudar, até aprender o que é certo e o que é errado". Mais ponderado. João Cavalcante - que assistiu ás humilhações contra a colega de turma que acabou indo embora da escola - admite que a matéria pode não resolver, mas ajuda a melhorar.


AMARAL, Flávia. Racismo agrava evasão nas esolas. Alunos faltam às aulas ou até deixam a escola após sequência de humihações cometidas pelos colegas de sala. Tribuna Independente. Maceió, 16 out. 2011, p. 11.


Foguinho, Carvão, Chocolate. Negueba. Esses apelidos são rotina na vida escolar de muitos alunos que pagam caro por terem a pele de cor negra. E é para erradicar das salas de aula esse tipo de preconceito que foi sancionada a Lei Federal 10.639 de 2003 que entre outras determinações obriga as unidades de ensino a inserirem na grade curricular uma disciplina especifica sobre as relações étnico-raciais.

Mas, em termos de adesão, o país ainda engatinha: a lei está em apenas 20% da rede de ensino. E em Alagoas apenas uma faculdade particular, a Faculdade Integrada Tiradentos (FITs). adutou a lei em suas práticas pedagógicas.

E enquanto essas e outras medidas não se tornam realidade, o preconceito racial segue fazendo cada vez mais vítima e acirrando a problemática da já preocupante evasão escolar. Num efeito dominó, até mesmo recursos do Bolsa Família estão sendo comprometidos.

Acuados pelo preconceito, alunos como Jorge (nome fictício), da Escola Rosalvo Lôbo, na Jatiúca, sequer têm postura altiva em sala de aula. Sentado logo à frente da professora, em uma das primeiras carteiras, ele pouco fala e de cabeça baixa diz não se importar com as frequentes humilhações a que é submetido por colegas de turma, num exercício quase que rotineiro.

Foi a colega de turma quem detalhou o contexto de agressão vivenciado pelo estudante. Muitas vezes, ela mesma tem quo intervir, já que ele não costuma esboçar qualquer reação. "Ficam chamando ele de Chocolate, Negueba. Eu não gosto disso e mando parar porque ele fica quieto, aguenta calado. Um absurdo!", diz a colega com ar de revolta.

Ela conta que as agressões não são apenas verbais. Há quem chegue na sala de aula e mande Jorge desocupar a cadeira para que um outro aluno sente "Ele dizem: sai Negueba, sai. E ele sai", lembra. Cabisbaixo, Jorge ouve todoo desabafo da amiga e se restringe a dizer que simplesmente não liga.


ORÇAMENTO MENOR

Mãe perdeu Bolsa Família após 37 faltas do filho.

Foi fora da sala de aula, na casa de Jorge (nome fictício), que a reportagem constatou que ele não só se abala com a atitude dos colegas, como estáse afastando da escola. Aluno média 8, há algum tempo ele vem faltando às aulas, e as ausências — até então injustificadas para a família - impactaram também no estreito orçamento doméstico.

O estudante vive em uma pequeníssima casa de dois cômodos, na Grota do Cigano, no Jacintinho, com a mãe – a diarista Liliane Cardoso dos Santos, a avó - de mesma profissão, Maria de Fátima Cardoso, e ainda o irmão Antônio. Sem um pai presente, os custos da casa são bancados por faxinas esporádicas e com o recurso do Bolsa Família, no valor de R$ 134.

Não bastasse o dinheiro contado, a família agora está com o benefício suspenso devido às 37 faltas acumuladas por Jorge nos últimos meses. "É quando eu não estou mais aguentando tanto xingamento, apelido, que prefiro não ir para a escola. Aí não vou. Eu não pedi para ser assim... Preto", lamentou Jorge, que diz ver cada dia mais distante o sonho de ser advogado. Para ele, em todas as escolas, os colegas dispensarão a ele o mesmo tipo do tratamento que ele tem hoje. "Já ouvi de outros amigos que são pretos que é do mesmo jeito. Então nem adianta mudar de escola", conclui.

A apatia aparente quanto às humilhações que o estudante sofre é explicada pelos conselhos recebidos pela mãe. "Ele chega em casa reclamando que ficam colocando esses apelidos nele e eu digo sempre que ele entregue a Deus e não brigue com ninguém. Entre na escola, estude e venha embora. Além de pretos, minha filha, somos pobres", resumiu Liliane enquanto o filho ouvia a tudo atento, mas ainda de cabeça baixa.

Diferenças

Albinos também são alvo de discriminação

O racismo não se restringe àqueles de cor negra. No outro extremo, ele também se faz presente. Jovens com albinismo — pele extremamente branca pela ausência de melanina - também são alvos de chacotas e discriminação. O professor de jiu-jit-su, Tales Rocha, vivenciou isso na prática.

Ele é negro e embora nunca tenha vivenciado situações de racismo direcionadas a ele, já assistiu a inúmeros casos e em alguns deles partiu em defesa da vítima. Um rapaz albino teria sido covardemente humilhado por dois colegas, na quadra de esportes da Escola Rosalvo Lôbo. "Ele foi xingado várias vezes e eu tomei as dores dele. Fomos parar na direção e acabamos suspensos, os quatro", contou o professor, que diz acreditar que uma vez adotada a Lei do Racismo, nas escolas, situações como essas tendam a se tornar menos frequentes.


TRIBUNA INDEPENDENTE. CONTRA MILITAR. Líder comunitário é preso por racismo. Tribuna Independente. Maceió, 20 out. 2011, p. 12.

O soldado da Polícia Militar (PM), Anderson Gazias Abreu, acusou o líder comunitário Gilmar Genival Mendonça de racismo. Ele teria desacatado o militar e o chamou de "negro safado", durante uma discussão ocorrida na Rua do Encanto, no Clima Bom. O crime ocorreu na noite de terça-feira, logo depois que um sobrinho do acusado, menor de idade, foi detido por policiais, acusado de integrar um grupo que tinha acabado de trocar tiros com a guarnição da PM. Segundo a Polícia, Gilmar tentava impedir a prisão do sobrinho.


AIRAN, Breno. Estudante vítima de bullying leva a revolta para casa. Diretor diz que colegas “mexem” com adolescente por ele usar brincos. Tribuna Independente, Maceió, 25 out. 2011, p. 12.

Mais uma vez a Escola Estadual Professor Eduardo da Mota Trigueiros, no bairro da Jatiúca, em Maceió, foi palco de uma polêmica, ontem. Só este ano, segundo a direção, a instituição foi roubada dez vezes. Desta vez, o prejuízo foi outro. Após denúncia feita pelos próprios estudantes do colégio, oficiais do Batalhão de Polícia Escolar (BPEsc) checaram nas salas se havia uma arma de fogo no local.

O revólver Taurus calibre 38 com seis balas roller points (que se espalha quando atinge o alvo) foi encontrado na bolsa de um aluno. Uma aluna, de 15 anos de idade, irmã do proprietário da arma, escondeu o objeto na bolsa do estudante, de 14 anos de idade.

Segundo o acusado de levar o artefato para a escola, um menino de 14 anos, ele pôs a arma em sua bolsa para “se defender”, afinal, onde mora, próximo à escola, a criminalidade é grande.

O diretor, o professor de Informática Jeferson Levino da Silva, deu dois possíveis motivos para o estudante ter leva do a arma. O primeiro é que o aluno teria o ameaçado quando foi suspenso da escola por ter ido com uma calça que não fazia parte do uniforme. O segundo é que o garoto, segundo o diretor, vem sendo vítima de bullying por colegas de sala, por usar brincos. "Chamaram-no de 'viado' e ele falou que ia matar quem tinha dito isso. Bem, eu não aguento mais ficar nessa escola, diante de tanta confusão", desabafa.

A mãe do garoto apreendido, no entanto, afirmou à reportagem da Tribuna Independente que o filho de apenas 14 anos não tem ligação com o mundo das drogas - pelo menos que ela saiba. "Ele é esforçado. Sabe o duro que eu dou. Só que no momento estou desempregada. Esses dois não têm pai, um pai presente", diz.

E completa: "Ele realmente me falou que um amigo estava “arengando” com ele. Mas ainda não sei como ele arrumou essa arma". Todos foram ouvidos pela delegada de Menores Infratores, no bairro do Jacintinho, e liberados, por ser menores.


A imprensa de Alagoas: homossexual e violência. Outubro, 2011.




CALHEIROS, Valdete. Homofobia. GGAL propõe que a PF acompanhe inquéritos. O JORNAL, Maceió, 04 out. 2011, p. 12.

Alagoas ocupa o 4º lugar no ranking dos  estados brasileiros em violência contra homossexuais.  O caso mais recente foi o do homossexual Heli de Lima, 44, assassinado no município de Coruripe no último dia 24.
Por causa das estatísticas que estão transformando  Alagoas em um Estado homofóbico, a direção do Grupo Gay de Alagoas (GGAL)  está pensando em solicitar  à Polícia Federal que acompanhe os  inquéritos sobre os crimes cometidos contra os homossexuais.
A decisão de "convidar" a Polícia  Federal será tomada dentro de algumas semanas caso o Grupo Gay de Alagoas não consiga ser recebido  pela Secretaria de Estado da Mulher, Cidadania e Direitos Humanos, conforme adiantou o Presidente do GCAL, Nildo Correia.
A entidade contabilizou 167 assassinatos de homossexuais no país desde o início deste ano, dos quais 10 toram registrados em Alagoas. "A situação está se tomando insustentável.  Desde o Carnaval solicitamos uma audiência na Secretaria de Estado de Defesa Social.  Até agora, sequer tivemos uma resposta ou mesmo uma data prevista para o encontro”, complementou.          
            De acordo com o Grupo Gay de Alagoas,  em nenhum dos crimes, a polícia chegou aos nomes dos suspeitos. Para Nildo Correia, os crimes homofóbicos  mostram uma sucessão de problemas .
"A ausência de  políticas públicas afirmativas,  o fato de os jovens homossexuais serem expulsos de casa cada vez mais cedo. Levando-os à criminalidade e marginalidade, o contato com as drogas e, por fim, a impunidade", enumerou.
Nildo Correia disse ainda que as autoridades não se preocupam com  o assunto. E emendou: no passado, 24 homossexuais foram assassinados em Alagoas. Naquele ano, a quantidade de crimes homofóbicos  colocou o Estado em segundo lugar no ranking brasileiro de violência contra os homossexuais.
Em 2010, Alagoas  perdeu apenas para Bahia que registrou 29 assassinatos. São Paulo e Rio de Janeiro registraram  23 homicídios, cada um. Em 2009, foram contabilizados 22  homicídios  de homossexuais.  Naquele ano, Alagoas foi o terceiro Estado mais  violento em relação a esse tipo de crime.
Nildo Correia disse também que nos últimos dez anos Alagoas registrou o assassinato do homossexual mais jovem do país, um adolescente de 14 anos que foi morto com 14 tiros.  "O homossexual mais idoso do país assassinado na última década também é alagoana Foi um senhor de 78 anos e morador de União dos Palmares".
No Brasil, foram registrados 260 casos de homicídios contra gays e travestis  no ano passado, o que representa um aumento de 31% em relação a 2009, de acordo com o Grupo Gay da Bahia.
Ainda conforme o levantamento, o número de assassinatos em 2010 alcançou uma média e uma morte de homossexual a cada um dia e meio. Devido a essas estatísticas, o Brasil é considerado o país com o maior número de crimes contra a população de lésbicas e homosesuxais.



GONÇALVES, Maurício. CRIME HOMOFÓBICO. Guarda municipal é morto a facadas. CORPO DE JOSÉ FRANCISCO FOI ACHADO EM FRENTE À CENTRAL DE POLÍCIA, NA PRAIA DO SOBRAL; CATEGORIA RECLAMA DE VIOLÊNCIA. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 06 out. 2011, p. 14


Como fazia todas as noites, о guarda municipal José Francisco de Paula Filho, 47 anos, saiu de casa em busca de amor na Praia do Sobral. Dessa vez só encontraria о ódio. Há indícios que ele foi empurrado do calçadão pa­ra a areia, arrastado роr alguns metros e assassinado com cerca de dez facadas no coração, na cabeça, nas mãos, nas pernas e um corte comprido no pescoço. О согро foi achado em frente à Central de Polícia, ontem pela manhã.
Parentes e colegas de trabalho sabiam da opção sexual de Jo­sé e suspeitam que ele tenha sido mais uma vítima de crime homofóbico em Alagoas. Ele quase sempre saía para suas andanças noturnas sem dinheiro, sem celular e sem objetos valiosos, о que toma remota a hipótese de latrocínio (roubar e matar). O guarda atuava apenas em serviços burocráticos dentro da repartição e era muito benquisto pelos colegas, afastando a tese de vingança ou crime relacionado ao trabalho.
A delegada do 22° Distrito Policial (DP), Maria Aparecida de Araujo, informa que о соrро foi achado numa área perigosa. "Ali e área de tráfico e prostituição, tem muito bandido, não podemos descartar nenhuma hipóte­se ainda, mas é difícil pensar em latrocínio porque a família acha que ele não tinha nada de va­lor. Quem matou pode ter pensado que a vítima tinha dinheiro, aquele pessoal dali vive cheio de droga, mas é mais possível que tenha sido рог essa ojeriza que algumas pessoas têm contra о homossexual".
Ao saber do crime, vários co­legas de farda foram ao Institu­to Médico Legal (IML) de Maceió em busca de informações. О сог­ро foi velado na sede da Guarda Municipal e enterrado no Cemitério de São José, no Trapiche, sob comoção e protestos.
A presidente da Associação dos Guardas Municipais, Solange Dias, informou que a categoria está organizando uma manifestação de protesto contra a violência e a impunidade.

REVOLTA

José é о sétimo guarda assassi­nado desde 2010. Este ano, fo­ram três vítimas. "A nossa indignação é ver toda essa violência e a impunidade, com о aumento acelerado dos casos, e ninguém vê о Estado dar uma resposta", diz Solange Dias. Alguns amigos estavam inconsoláveis. "Era um cara pacato, muito legal, sempre ajudava todo mundo, tinha um coração maravilhoso", afirma Josivaldo Ataíde, colega de farda.
José Francisco morava no Prado, numa casa que dividia com irmãos e sobrinhos. Como sempre costumava regressar рог volta das 23h e nunca dormia fora de casa. A família estranhou sua ausência ao raiar do sol. Apos uma conhecida ouvir no rádio sobre um corpo encontrado na areia do Sobral, coube ao irmão, о vigilan­te Gilson Francisco de Paula, a infeliz tarefa de ir lá. "Quando estava a caminho, só me veio na cabeça uma tristeza, eu estava sentindo uma coisa ruim", desabafa Gilson.
Segundo Gilson, um vigilante da região ainda disse ter ouvido os gritos de uma pessoa, durante a noite, mas não teria visto nada. Quando confirmou que о cor­po era mesmo de seu irmão, Gilson afirma que não se conteve. "Pensei, poxa, perdi meu irmão, ele nunca mexeu com ninguém, sempre foi honesto, trabalhador, vivia de cabeça erguida, e agora está ai desse jeito".         

José Francisco é о terceiro guarda assassinado este ano

Colegas de farda de José Francisco foram ao Instituto Médico Legal em busca de informações sobre o assassinato

Após reconhecer corpo, Gilson lamentou a perda do irmão



D.M. HOMOFOBIA. Guarda municipal é esfaqueado próximo à Central de Polícia. Tribuna Independente, Maceió, 06 out. 2011, p. 11

Por volta das seis horas da manhã de ontem, o corpo do guarda municipal José Francisco, da 49 anos, foi encontrado por pescadores na areia da Praia do Sobral, em frente à Central de Polícia. De acordo com os levanta mentos realizados pelo Instituto de Criminalística (IC), ele morreu após ser esfaqueado, com 20 perfurações. No local, era possível ver indícios de uma luta corporal travada, por conta de várias manchas de sangue no chão.

Segundo informações coletadas com familiares de José Francisco, encaminhados à delegada plantonista Bárbara Arraes e à delegada Maria Aparecida, do 22° Distrito Policial, a vítima trabalhava como guarda municipal e também era moradora do bairro do Prado. Segundo elas. Francisco costumava sair para beber nas madrugadas.

A delegada Maria Aparecida não descarta a possibilidade de o crime ter sido praticado por motivos homofóbicoa, já que, segundo informações da família da vítima. Francisco teria assumido a sua orientação sexual e teria sido seguido por uma pessoa com quem manteria um relacionamento. Pescadores da região informaram que a localidade é famosa por ser um ponto de prostituição.

"Até o momento, apuramos que ele pode ter sido vítima de homofobia. Alguns familiares já informaram isso. Existe também a suspeita dele ter sido seguido por alguém de bicicleta. Vamos investigar para chegar a uma conclusão. Sexta-feira ouviremos os familiares e vamos dar início às investigações". O corpo da José Francisco foi velado ontem na sede da Guarda Municipal de Maceió, no bairro de Jaraguá.



ROSA, Láyra Santa. Guarda Municipal é morto a facadas na praia da Avenida. Os familiares de José Francisco suspeitam de crime homofóbico. O Jornal, 6 de out. 2011, p. 10.

O corpo do guarda municipal José Francisco de Paula, 49, foi encontrado na manhã de ontem, com vários golpes de arma branca (faca), na areia da praia da Avenida. no bairro do Prado, em Maceió. A família não sabe a motivação do crime, mas suspeita que tenha ligação com a sexualidade da vítima, que era homossexual.

Assim como fazia quase todos os dias, por volta das I9h30 de terça-feira. "De Paula" como era conhecido, avisou à família que iria até a orla fazer uma caminhada e que voltaria logo. Com o passar das horas, os sobrinhos que moram com ele na Rua Franco Jatobá, no Prado, começaram a ficar preocupados e entraram em contato com a família.

"Foi um desespero durante toda madrugada. Ligamos para a casa de todos os nossos familiares e ninguém sabia dele. Tentamos o celular, mas ele tinha deixadio em casa Pela manhã, começamos a fazer a procura e meu tio, já encontrou o corpo sendo recolhidopelo IML (Instituto Médico Legal) Ele sempre fazia isso, era discreto, mas sabíamos que suas caminhadas eram para se encontrar com outras pessoas, disse a sobrinha da vítima, Alessandra Patrícia de Paula.

Muito abalado, o irmão do guarda municipal, que trabalha como vigilante, Gilson Francisco de Paula, relatou que foi doloroso ver o irmão morto na praia. "Passei de moto por toda a praia e vi o rabecão do IML. Naquele momento, imaginei que poderia ser meu irmão e fui fazer o reconhecimento. Foi muito sofrido. Perdi meu amigo. Ele morava comigo e com minha família”, falou. “ Foi uma perversidade o que fizeram com ele. Era uma pessoa humilde, sem inimigos e que jamais comentou qualquer tipo de ameaça ou desentendimento. Acho que esse crime não tem ligação com o ambiente de trabalho dele".

De Paula foi encontrado morto a poucos metros da Central dc Polícia, no bairro do Prado. Ele estava caído na areia da praia, com vários golpes na região do pescoço, no braço e nas mãos. "Acredito que ele estava caminhando na calçada e alguém o derrubou para a praia. Pelo que vi nas marcas pelo corpo, acredito que ele tenha tentado se defender, chegando a correr. Tinham muitos cortes no pescoço, mas também havia cortes nas mçãos e braços”, disse Gilson Francisco.

Além de matar o guarda nunicipal. o assassino ainda levou a carteira com todos os documentos, inclusive a identidade funcional. “Não faço ideia do que pode ter acontecido. Como já disse, meu irmão era muito discreto, na dele. Não mexia com ninguém e respeitávamos a vida dele. O que sabemos é que ele foi morto e que levaram todos os documentos". disse o irmão. "Foi um crime cruel. Tenho certeza que mataram meu irmão por um motivo fútil. Ele eran muito pacato e falava pouco. Espero que o culpado seja preso, apesar de não acreditar na justiça. Estamos vivendo um momento onde cidadão de bem morre e bandido fica solto", desabafou.

INVESTIGAÇÃO – A morte de José Francisco de Paula deverá ser investigada pela equipe da delegada Maria Aparecida, titular do 22º Distrito Policial. A expectativa é que até a próxima semana, parentes e amigos da vítima sejam chamados para prestar depoimento. Uma das linhas que deve ser investigada é crime homofóbico.

Na manhã de ontem, no IML o movimento de guardas municipais foi intenso. Vários companheiros de trabalho do guarda De Paula estavam revoltados com o crime. "Ele era uma pessoa de bem. A guarda municipal está de luto. Sabíamos da opção sexual dele, mas ele nunca mexeu com ninguém. Estamos todos chocados com esse crime e preocupados. Essa é a segunda morte de guarda municipal em menos de quinze dias", disse a guarda Cristiana Roberta Cordeiro. "Eu sinceramente, já estou pensando em fazer outro concurso e deixar essa profissão. Estamos com muito medo dessa violência. Não consigo entender como assassinaram uma pessoa tão da paz como De Paula".

Para outro amigo da vítima, o guarda Marcos Ferreira dos Santos o crime precisa ser apurado e os culpados punidos. "Estamos muito tristes com essa situação. Estamos vendo nossos amigos morrerem e nada ser feito para que os culpados sejam presos e paguem por seus crimes. Isso mostra a falta de Comando na guarda e também o valor que temos", desabafou Ferreira.





GGAL: entidades vão intensificar ações

De acordo Nildo Correia, presidente do Grupo Gay de Alagoas, ele não conhecia a vítima, mas as características do assassinato e pelas informações que as pessoas estão dando sobre De Paula, existem fortes características estar ligada à homossexualidade. "Não posso afirmar nada, mas esse crime pode ter sido mais um por motivos homofóbicos. Estamos em um Estado, que aparece entre os dez que mais matam homossexuais no país. Em dez dias esse é o segundo caso, totalizando onze assassinatos apenas este ano. E entre os crimes, apenas em dois casos os culpados foram presos", afirmou o presidente do GGAL.

Diante de tanta violência, o movimento nacional de homossexuais está organizando para tomar medidas mais enérgicas. "Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Goiás,Sergipe e Paraíba são os estados mais violentos contra homossexuais. Estamos cansados de pedir punições e ações contra a violência, então o movimento nacional está se reunindo e deve intervir com ações mais fortes. É preciso buscar soluções para acabar com essa situação”, completou Nildo Correia


Guardas: 4 mortes somente em 2011

Segundo o Sindicato dos Guardas Municipais de Alagoas, desde 2009, 14 guardas municipais foram mortos. E em nenhum deles, os culpados foram localizados e presos. Somente este ano foram quatro profissionais assassinados. Três em Maceió e um na cidade de Anadia.

"Essas mortes estão causando pânico na categoria. Nenhum desses crimes foi elucidado e não foi por falta de cobranças. Já pedimos soluções à Defesa Social, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil (seccional Alagoas). Esta última foi a única a se mover contra essa situação, o resto nos deitou sem respostas", falou Clcif Ricardo Santos Alves, presidente do sindicato.

A categoria deverá realizar na próxima segunda-feira um ato pedindo agilidade nas investigacões das mortes dos guardas municipais. "São anos de impunidade. Se continuar dessa forma, vamos acabar sendo dizimados. [...]

RODRIGUES, Marcos. CRIMES DE HOMOFOBIA. Guarda Municipal foi a 11ª vítima em AL. JOSÉ FRANCISCO DE PAULA FOI MORTO A FACADAS PRÓXIMO A CENTRAL DE POLÍCIA, NO PRADO; ACUSADO DO ASSASSINATO AINDA NAÃO FOI PRESO. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 07 out. 2011, p17.

A morte violenta do guarda mu­nicipal José Francisco de Paula Filho, 47 anos, pode engrossar uma triste estatística: Alagoas é о 4º Estado em numero de cri­mes contra a vida de homossexuais. De acordo com dados do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), о funcionário público foi a 11ª vítima este ano executada durante um possível "encontro". Seu corpo foi achado com dez facadas no peito e outras oito espalhadas pelo corpo.

"Por causa disso, há décadas, não conseguimos sair da relação dos dez Estados que mais matam homossexuais no Brasil. Ate agora já são 171 mortes em todo о País", disse о presidente do GGAL, Nildo Correia.

Em entrevista a TV GAZETA, ele disse que dos casos registrados em Alagoas, apenas dois estão esclarecidos, enquanto os demais, segundo dados de entidades nacionais, não tem sequer acusados.

Conforme о GGAL, existe uma relação entre a condição social e a impunidade. Em geral, os casos que envolvem homossexuais de baixa renda costumam ficar impunes.

"Ainda mais quando a família, além da sociedade, e a imprensa, não pressionam pelo esclarecimento", revelou Nildo.

Quanto a questão familiar, ele disse ainda que esse não é о caso da do guarda municipal. Além de reconhecer e respeitar sua con­dição sexual, a família da vítima demonstrou disposição de não deixar о caso figurar entre as estatísticas da impunidade.

Neste aspecto, a Associação dos Guardas Municipais, também não irá silenciar. Tanto que já articula um protesto contra a violência que atinge a categoria para os próximos dias.

Ao criticar a postura das autoridades de segurança, о pre­sidente do GGAL informou que desde о inicio do ano aguarda uma resposta da Secretaria de Defesa Social (Seds).

Segundo Nildo Correia, até о momento о secretário Dário César não atendeu a solicitação da entidade para um encontro onde seriam discutidas estratégias de combate a violência contra homossexuais.

O tema foi discutido na Conferência LGBT de 2008 quando foi definida a criação de um Grupo de Trabalho de Segurança Pública que teria о objetivo de aprofundar о debate em busca de soluções para conter os ataques violentos.

Enquanto isso não acontece, о GGAL tem feito campanhas de conscientização para alertar aos gays sobre os riscos de relates com estranhos. A entidade também foca a "questão da aceitação" por parte dos heterossexuais, para conquistar о respeito e despertar a tolerância.

Quanto à investigação do homicídio, a delegada do 22° DP, Maria Aparecida Araújo, declarou que vai iniciar as investigações a partir dos dependentes de crack que moram num prédio invadido nas imediações do local do crime. "Foi uma ousadia muito grande. Ele (José Francisco) foi morto praticamente enfrente a Central de Policia", disse a dele­gada.

O primeiro passo das investi­gações incluirá о contato com a família. Até о momento, diante da repercussão do caso, ela já sabe que a vítima costumava percorrer a orla, em geral à noite, possivelmente em busca de parceiros. Mas, os detalhes ainda serão levantados a partir dos depoimentos
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Presidente do GGAL, Nildo Correia, afirmou que só dois casos foram esclarecidos no Estado


PAUTA GERAL. PROTESTO. O JORNAL. Maceió, 08 out. 2011, p.2

O Sindicato dos Guardas Municipais de Alagoas re­alizará, nesta segunda, a partir das 7h, uma caminhada pelas ruas do centro da capital. O objetivo é chamar a atenção para homicídios, tentativas e ameaças que vêm ocorrendo contra guardas municipais. A concentração acontecerá na Praça Deodoro.



OLIVEIRA, Bleine. MANIFESTAÇÃO. Guardas municipais protestam contra onda de violência. CATEGORIA COBRA ELUCIDACAO DE CRIMES E USO DE ARMA DE FOGO. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 11 out. 2011, p. 12.

Cerca de uma centena de guardas municipais foram às ruas ontem reclamar a solução dos homicídios de companheiros de atividades. No dia nacional do guarda municipal, о sindicato da categoria promoveu uma caminhada por algumas das principais ruas do Centro, onde os guardas fizeram duras críticas aos ocupantes de cargos nas três esferas do poder público.

Eles cobraram a apuração de 14 assassinatos que, segundo о Sindguarda/AL, ocorreram em função do exercício da função, da mesma forma que denunciaram о abandono a que estão submetidos, com baixos salários e sem condições de trabalho. "A sociedade precisa tomar conhecimento do que está acontecendo na Guarda Municipal", disse Cleif Ricardo, presidente do Sindguar­da/AL.

A caminhada pela paz tornou ainda mais lento о trânsito no Centro e em seu entorno. Alem do apitaço dos guardas, os motoristas, insatisfeitos com os congestionamentos, buzinavam insistentemente. A irritação dos motoristas por pouco não resultou na briga de um deles com um dos manifestantes, num trecho da Rua do Sol.

As lideranças do movimento conseguiram conter os ânimos e a passeata prosseguiu até as proximidades do Palacio República dos Palmares, sede do governo alagoano. A categoria e formada por 857 guardas municipais cuja atribuição e garantir a segurança dos prédios públicos. Por lei, não podem trabalhar armados.

Na manifestação de ontem eles pediram a regulamentação do uso de arma de fogo para todos os que estão nessa atividade. Outro ponto destacado pelo Sindguarda foi a elucidação dos homicídios que vitimaram a ca­tegoria nos últimos dois anos.

O presidente da entidade ressalta que, entre os meses de setembro e outubro, dois guardas municipais foram assassinados. As mortes dos guardas civis Hernandes Omena de Oliveira, executado a tiros quando chegava em casa, no Benedito Bentes, no dia 20 de setembro, e Jose Francisco de Paula, morto a facadas na Praia do Sobral, no ultimo dia 4, são os casos mais recentes e que, segundo sindicato, justificam a manifestação que realizaram ontem pela manha.

"Queremos que todas essas mortes sejam esclarecidas. E uma violência inaceitável, que se agrava por não sabermos de onde partiu", disse Cleif Ricardo. O secretário de Defesa Social, coronel PM Dário César Cavalcante foi citado nominalmente quando as lideranças cobraram о esclarecimento de todas as mortes.

Mas os guardas também aproveitaram a manifestação para reclamar da Prefeitura condições de trabalho e melhores salários. O prefeito Cícero Almeida foi ci­tado diversas vezes, duramente criticado pela categoria. O abandono do prédio sede da GCM, a falta de equipamentos e fardamento adequado foram motivos de críticas. "Prefeito, о senhor vai deixar о cargo, depois de 8 anos, sem cumprir a promessa de valorizar os servidores públicos", disse Cleif Ricardo.

Ao passar em frente à Praça Pedro II, onde fica о prédio da Assembleia Legislativa, os manifestantes reclamaram da classe política, acusando os parlamentares de serem omissos diante dos problemas da população. A manifestação teve a participação dos familiares dos guardas, inclusive daqueles cujas mortes estão sendo cobradas.
Guardas percorreram ruas do Centro


REDAÇÃO. AÇÃO NACIONAL. Alagoas assinará pacto contra a homofobia. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 20 out. 2011, p. 16

A Secretaria de Estado da Defesa Social (Seds) envi­ou a Brasília o integran­te do Conselho de Comba­te à Discriminação em Ala­goas, Aarão José da Silva, para participar de reunião com representantes da Se­cretaria de Direitos Huma­nos da Presidência da República (SEDH) e o Minis­tério da Justiça, que elabo­rou um protocolo de inten­ções a ser pactuado com as secretarias estaduais de Se­gurança Pública de todo o País.

O documento tem como objetivo a construção de políticas públicas de segu­rança e o enfrentamento à violência contra homosse­xuais no Brasil.

Durante a reunião, a mi­nistra da SEDH, Maria do Rosário, e os representan­tes dos Estados debateram os itens da minuta, fize­ram adaptações, mudan­ças e aprovaram o texto fi­nal do protocolo de ações conjuntas no combate à ho­mofobia, que será encami­nhado aos secretários de Segurança Pública de todos os Estados brasileiros, para avaliação e realização dos últimos ajustes antes da as­sinatura do termo.

"A intenção da SEDH e do Ministério da Justiça é que todas as secretarias tenham um trabalho concre­to de defesa e de atendi­mento adequado dos ho­mossexuais nas delegacias e em todas as estruturas policiais", explicou.

O documento deverá ser assinado por todos os secretários e os minis­tros, durante realização da Conferência Nacional LGBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais), que ocorre­rá de 15 a 18 de dezembro, em Brasília.

A imprensa de Alagoas: morador de rua e violência. Outubro, 2011.


SOUZA, NATÁLIA. PRESO. Morador de rua confessa assassinato. MARCOS ANDRÉ TERIA MATADO A PEDRADAS OUTRO SEM TETO, SÁBADO PASSADO, NO STELLA MARIS. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 07 out. 2011, p. 17
                
O morador de rua e guardador de carro Marcos André Silva Oliveira, 19, foi preso na madrugada de ontem por agentes da Delegacia de Homicídios da Capital, localizada no bairro do Poço. Marcos André é assassino confesso de outro morador de rua, Wanderson da Silva, 20, morto a pedradas no sábado passado.
Há dias investigando Marcos André, somente ontem os agen­tes conseguiram о novo paradeiro do morador de rua. "Desde о início da investigação já tínhamos identificado ele através de um apelido. Ele é conhecido também como 'Zoinho'", disse. "A gente sabia onde ele trabalhava como guardador de carro, próxi­mo ao Stella Maris, mas nos últimos dias ele tinha passado a noite em outros locais para se esconder", disse Denilson Ferreira, chefe de operações da delegacia.
Na tarde de ontem, Marcos André foi levado ao Instituto Mé­dico Legal para realizar exame de согро е delito.
Ao chegar a Delegacia de Ho­micídios, о acusado confessou a autoria do assassinato e contou sobre a motivação do crime. "Ele tinha roubado uma blusa minha e quando eu fui cobrar ele ameaçou me matar", contou о mora­dor de rua, afirmando ter matado Wanderson a pedradas.
Denilson Ferreira, afirmou ainda que Marcos estava alcoolizado no momento da prisão. "Quan­do os crimes não têm características de execução, as motivações geralmente são por motivos banais, brigas por território, drogas, pequenos furtos entre eles", afirmou.
O morador de rua foi ouvido ontem mesmo pela delegada Sheila Carvalho, titular da Dele­gacia de Homicídios. Hoje, ele se­rá encaminhado a Casa de Custódia onde deve permanecer durante a conclusão do inquérito.

Marcos Silva Afirmou que vítima o teria ameaçado após briga



ALMEIDA, Fátima. Mais um morador de rua é assassinado. VÍTIMA RECEBEU SEIS TIROS À QUEIMA-ROUPA. GAZETA DE ALAGOAS. Maceió, 18 out. 2001, p. 16

Mais um morador de rua foi as­sassinado em Maceió. Na tarde do domingo (16), um homem co­nhecido como "Pirata" foi mor­to a tiros em uma das esquinas do cruzamento da Rua Rodrigues Alves com a Agnelo Barbosa, no bairro do Prado. Não há relatos de briga ou de discussão antes do assassinato. Há informações repassadas à polícia de que dois homens numa moto pararam no local, dispararam seis tiros con­tra a vítima e fugiram.

O morador Alexandre Montei­ro diz que chegou ao local logo após os disparos, mas não ha­via nem sinal dos atiradores. “Fui até a porta e vi que estava se formando um aglomerado na es­quina. Vim até aqui e vi que ti­nha um homem morto. A polí­cia já estava chegando no local", diz ele, apontando o exato lo­cal onde "Pirata" foi assassinado, na calçada da esquina onde está sendo edificada uma construção.

Nas imediações, ninguém pa­rece conhecer a vítima. "Acho que ele estava de passagem, por­que nunca tinha visto ele por aqui", diz Monteiro.

Os primeiros levantamentos foram feitos por militares do 1° Batalhão, que estiveram no lo­cal. O corpo foi recolhido ao Ins­tituto Médico Legal (IML), onde permanecia até o final da manhã de ontem. Informações no IML indicavam que uma pessoa ha­via se apresentado como mãe do homem assassinado e, inclusive, teria feito o reconhecimento do corpo, porém, não tinha consi­go nenhum documento que possibilitasse a liberação. "Estamos esperando ela retomar com a do­cumentação, para poder ser re­gistrado o óbito e liberar o cor­po", disse um funcionário.

ESTATÍSTICAS

Segundo a contagem que vem sendo feita pela imprensa, este é o l9° morador de rua morto em Maceió este ano. O 18° foi conta­bilizado no início do mês.

De acordo com o presidente da Comissão de Direitos Huma­nos da Ordem dos Advogados do Brasil de Alagoas (OAB/AL), Gil­berto Irineu, até agora só há informações - passadas pela Polí­cia Civil à entidade - da elucida­ção de três desses crimes.

"Estamos apreensivos. O re­tardo nas investigações e na elu­cidação dessas mortes faz com que os Índices aumentem, por­que a impunidade favorece o cri­me", diz ele, informando que no dia 17 de julho, quando aconte­ceu o 12° caso de morte envol­vendo moradores de rua ou pes­soas em situação de rua, enca­minhou ofício à Procuradoria Ge­ral de Justiça, sugerindo a desig­nação de um promotor especial para atuar em todos esses casos, acompanhando se os inquéritos foram instaurados em tempo há­bil e o andamento desses proces­sos, mas não recebeu resposta.


ROSA, Láyra Santa. Polícia registra 19° assassinato de morador de rua em Maceió. Rogério de Andrade Araújo, 26 anos, trabalhava como catador de latinhas.O JORNAL. Maceió, 18 out. 2011, p. 12


A Polícia Civil registrou mais um assassinato de mora­dor de rua em Maceió. De acor­do com informações da Ordem dos Advogados do Brasil, sec­cional Alagoas (OAB-AL), Rogério de Andrade Araújo, o 'Pirata', de 26 anos, é o 19º mo­rador de rua apenas este ano. O crime aconteceu entre os cru­zamentos das Ruas Agnelo Barbosa e Rodrigues Alves, no bairro do Prado, na tarde do último domingo.

Segundo informações do Centro Integrado de Defesa Social (CIODS) o morador de rua trabalhava como catador de latinhas para reciclagem próximo à linha do trem, quando dois homens numa motoci­cleta se aproximaram e deram seis disparos de arma de fogo. A placa da moto não foi anota­da e os criminosos rugiram.

Até o final da manhã de ontem, o corpo de Rogério de Andrade continuava no Instituto Médico Legal (IML), aguardando a família para libe­ração. Funcionários do órgão informaram que a mãe da víti­ma esteve no local, porém, como não tinha documentação, não conseguiu autorização para enterrar o filho. A família mora na cidade de Rio Largo e teria tentado várias vezes tirá-lo da rua. Como Rogério tinha envolvimento com drogas, não quis voltar para casa.

O assassinato será investiga­do pelo delegado Alcides Andrade, titular da Delegacia do 1º Distrito Policial. "Vamos esperar que a polícia dê uma resposta sobre mais esse crime, chegando à prisão dos autores. Já foram dezenove assassina­tos só este ano, com apenas quatro homicídios esclarecidos. E um número pequeno, que fortalece a impunidade", disse o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-AL, Gilberto Irineu.

No último mês de julho, a comissão encaminhou um rela­tório sobre os assassinatos de moradores de rua para o procurador-Geral de Justiça, Eduardo Tavares. O documento solici­tava que o Ministério Publico Estadual cobre ações mais in­cisivas da Defesa Social o uma integração maior entre os ór­gãos da Segurança Pública.

"Estamos preocupados com esse número de assassinatos e fa­zendo a nossa parte com cobran­ças. É preciso uma união de for­ças, para que essa situação dimi­nua. Queremos que o Ministério Público designe um promotor para acompanhar as investiga­ções e como está o andamento dos inquéritos", afirmou Irineu.

IMPUNIDADE - Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos existem dois fatores que levam a essa crescente no número de homicídios de moradores de rua. "A im­punidade que acontece, pela demora na conclusão dos in­quéritos, tem fortalecido os cri­minosos, que continuam ma­tando. Fora isso, ainda existem problemas sociais, onde são ne­cessárias ações mais constan­tes, para tirar e dar condições a essas pessoas que estão nas ruas", falou o advogado.

Ainda este ano, foi elabora­do um Plano Bienal com atividades e metas para serem exe­cutadas pelo município de Maceió, voltados para a assis­tência social. "Se não for feito nada urgente, chegaremos ao final de dezembro com um número de moradores de rua mortos maior que o ano pas­sado, onde foram registrados trinta e dois casos. Um núme­ro absurdo", disse Irineu.

"Já encaminhamos o plano bienal, com ações de saúde, educação, trabalho e assistên­cia social, para serem executados. É preciso agora boa von­tade por parte do poder públi­co, para que essa situação mude. É um trabalho que deve ser feito em conjunto", concluiu o advogado.